A blogosfera e a morte de quem não conhecemos
Por João Pedro Pereira em Engrenagem - Media e Tecnologia
Post Original no dia 02/04/2007
Este é um post suscitado pela morte recente do blogger brasileiro Aldemir Silva. Não o conhecia. Líamo-nos mutuamente.
Seguir atentamente o blogue de alguém pode dar uma estranha sensação de proximidade com o autor. Um pouco como o pivot do telejornal que todos os dias almoça ou janta connosco.
Mesmo que o blogue não seja de carácter pessoal ou íntimo, ficamos sempre a saber (através de dados explícitos ou de meros indícios) algo sobre as pessoas que o publicam: onde e quando passam férias (a maioria justifica as ausências, com esse sentimento de alguma culpa que surge quando as actualizações não são o desejável); quando se vão casar; onde estudaram; o que gostam de fazer nos tempos livres… Associe-se a isto a leitura quotidiana e temos os ingredientes para que se crie uma espécie de afinidade; e, às vezes, até se pensa que conhecemos a pessoa.
Já tive a experiência de conhecer de facto algumas pessoas cujos blogues lia e que sei que me liam. Mesmo que eu exclua por completo das minhas leituras os blogues de carácter íntimo (sejam de conhecidos ou estranhos), é muito diferente travar conhecimento com uma pessoa ou conhecê-la quando já se é leitor do seu blogue.
O sentimento de proximidade com um blogger parece-me, aliás, maior do que o que podemos ter por um escritor ou um pivot do telejornal - ou qualquer outra figura cuja voz integre o nosso quotidiano.
Em primeiro lugar porque, normalmente, não sabemos onde estes passam férias. Em segundo, porque com o apresentador de televisão ou o escritor preferido a relação é essencialmente unidireccional, ao passo que na blogosfera muitos autores permitem comentários, entram em diálogo com os leitores e dão-se ao trabalho de responder aos e-mails. Em terceiro, porque é uma relação mais nivelada, com a possibilidade de uma identificação expressa em algo como “esta pessoa é um blogger e eu também o sou (ou também o posso ser)”.
Um veterano da blogosfera (e lido por milhares) sublinhou que os leitores não são seus amigos - mesmo que alguns pensem que o são.
É absolutamente certo. Eu e o Aldemir Silva não eramos amigos ou sequer conhecidos. Na verdade, no meio dos mais de 70 sites que vou seguindo, já me tinha habituado à falta de actualização do seu blogue (à ausência daquela voz nas minhas leituras diárias). Mas é extraordinariamente sintomático de um mundo globalizado (e não digo que isso seja bom ou mau, limito-me a constatá-lo), que se saiba - e até se lamente - mais depressa a morte de alguém praticamente anónimo e que nunca vimos do que a morte de qualquer dos nossos vizinhos (sim, as realidades serão díspares e muita gente ainda conhece de facto os vizinhos, mas o ponto permanece válido).
O fenómeno, claro, não é exclusivo da blogosfera.


